Em memória dos olhos assustados

Oito e vinte da manhã.
Uma avenida.
Movimento, homens, automóveis.
Todos com pressa, têm horário.
Precisam chegar ao trabalho.

Um homem.
Uma motocicleta.
Um cão.

Acidente!

Homem para um lado,
Cachorro e motocicleta para o outro.
Tumulto.
– Chamem o resgate!
E quem será o resgatado?

O motociclista, com alguns arranhões,
Alcança a calçada.
Várias pessoas o cercam.
– Está tudo bem?

E quanto ao cachorro?
Este, pobre coitado, padece.

Caído sobre o asfalto, mal sabe o que lhe acontece.
Tudo o que vê é o movimento das rodas.
Carros, motos, caminhões,
Que agora desviam dele.

Assustado, não pode se mexer.
Os automóveis passam perto demais.
Ele está sozinho.
Cão assustado que só pode mover seus assustados olhos.

Então ele vê pés e pernas movendo-se em sua direção.
“Talvez o socorro, a salvação.”
Mas não!
Com seus olhos assustados ele não viu sua companheira de asfalto.
A motocicleta.
É com ela que estão preocupados.

– Nessas horas o dono do cachorro não aparece para pagar o prejuízo.

Dono? Há muito tempo ele não sabia o que era isso.
Talvez uma recordação ou, simplesmente, um sonho.

O homem acidentado não precisava de resgate.
A motocicleta não precisava de resgate.
Então ambos seguiram com suas vidas,
Tinham horário, tinham trabalho.

O cachorro ficou.
Agonizando.
Alguns homens ficaram a observá-lo.
Talvez torcendo para que morresse logo.
“Assim ele para de sofrer.”

“E a culpa por não termos ajudado diminua.”

Alguém resolveu tirá-lo do asfalto
Para que não atrapalhasse o trânsito,
Ou provocasse novos acidentes.
Novos prejuízos.

Os olhos assustados já não se moviam mais.
No canteiro central, da forma como o colocaram, ele ficou.
Novamente sozinho.
E o movimento da avenida prosseguiu.

Um carro parou próximo ao canteiro central.
Um casal desceu e observou o cão
Alguém reparou nele afinal.
Ele realmente existia, era real.

– Está vivo ainda?
– Não. Está morto.
Tarde demais.

O rapaz pegou um saco no bagageiro.
Um saco preto, saco de lixo.
Colocou o cão dentro do saco
E o saco de volta no bagageiro.

Isso era tudo o que ele representava agora.
LIXO!
Algo que atrapalha a sociedade e deve ser recolhido.
Algo que não nasceu para ser amado.

Pobre cão assustado,
Seu resgate veio tarde demais.

Poesia baseada em fatos reais. Escrita em meados dos anos 2010.

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